A sutileza mortal entre o tolo e o imbecil


Na superfície, parecem irmãos: o tolo e o imbecil. Ambos falam sem pensar, tropeçam nos próprios argumentos, se confundem com facilidade e frequentemente arrastam outros consigo. Mas há uma diferença sutil — e absolutamente decisiva — entre eles. O tolo é enganado. O imbecil se engana. O tolo age por ignorância. O imbecil, por arrogância.

O tolo pode ser salvo. Ainda há nele uma fresta de humildade, uma abertura para aprender, um vislumbre de dúvida. Sua tolice é, muitas vezes, fruto do contexto: má educação, ambiente limitado, falta de bons exemplos. Ele repete o que ouviu, sem perceber o ridículo. Mas quando confrontado com a verdade — se essa verdade for bem apresentada — ele hesita, vacila, e pode até se converter à lucidez. O tolo é como alguém que caminha no escuro, mas que aceita uma lanterna quando lhe é oferecida.

O imbecil, por outro lado, recusa a luz. Não porque não a veja, mas porque não a suporta. O imbecil acredita saber. Sua estupidez é teimosa, insolente, revestida de certeza. Ele não busca aprender, mas confirmar suas crenças. A imbecilidade é uma forma de cegueira voluntária, adornada por vaidade. Enquanto o tolo pode ser ingênuo, o imbecil é presunçoso. Ele constrói castelos sobre areia e zomba de quem traz os alicerces.

No mundo espiritual, essa diferença é ainda mais grave. O tolo pode zombar do sagrado por não compreendê-lo. O imbecil, por crer que está acima dele. O primeiro precisa de instrução. O segundo, de desconstrução. Um requer mestres. O outro, choques.

E há um perigo real: a sociedade contemporânea recompensa a imbecilidade mais do que pune. O imbecil ganha holofotes. O tolo vira plateia. E os sábios, muitas vezes, se calam. Mas um silêncio sábio também é um grito — para quem tem ouvidos.

A verdadeira maturidade consiste em saber identificar quando estamos sendo tolos — e, pior, quando estamos nos tornando imbecis. A linha entre ambos pode ser atravessada num instante, com um único gesto de orgulho, uma recusa em ouvir, uma defesa cega de ideias que já não se sustentam. É fácil zombar da ignorância dos outros. Mais difícil é reconhecer a nossa própria.

Na prática, o caminho da sabedoria começa com uma pergunta simples, mas brutal: “E se eu estiver errado?” O tolo raramente se faz essa pergunta. O imbecil jamais. Mas o sábio vive a partir dela.

Então, cabe a ti, leitor, examinar com coragem: em que áreas da tua vida tens agido como tolo — e ainda podes aprender? E em quais tens insistido como imbecil — e já perdeste a chance de crescer?

Porque entre o tolo e o imbecil há um fio tênue... e é fácil cruzá-lo sem perceber.

Agora eu te pergunto:

Em que parte da tua vida estás te enganando fingindo que estás apenas confuso?

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