Viver Muito é Acaso. Viver Bem é Escolha
O homem moderno vive obcecado pelo relógio, mas negligente com o sentido. Conta anos, mede expectativas de vida, teme a morte como se pudesse negociá-la — e, nesse esforço ansioso de prolongar o tempo, esquece-se de qualificar a existência. Preocupa-se em viver muito, quando o que realmente deveria inquietá-lo é viver bem. Há aqui um erro silencioso e profundo: a confusão entre duração e dignidade, entre quantidade de dias e qualidade de presença. A realidade é dura, mas libertadora — o viver muito não depende de nós; o viver bem, sim.
A longevidade é um acidente biológico, uma combinação de genética, circunstâncias e acaso. Já o viver bem é um ato de vontade consciente. É uma postura diante do mundo. É a coragem de escolher valores quando seria mais fácil seguir impulsos, de sustentar princípios quando a mediocridade oferece atalhos confortáveis. Viver bem exige lucidez, e a lucidez exige responsabilidade. Talvez por isso tantos prefiram sonhar com mais tempo, em vez de assumir a tarefa incômoda de dar sentido ao tempo que já possuem.
Existe algo quase trágico em ver pessoas que chegam aos oitenta anos sem jamais terem realmente habitado a própria vida. Respiraram por décadas, mas raramente estiveram presentes. Sobreviveram, mas não viveram. O medo da morte, quando mal compreendido, produz exatamente aquilo que tenta evitar: uma existência vazia, adiada, morna. Quem vive esperando “o momento certo” para ser verdadeiro, amar com profundidade ou assumir seu chamado, normalmente descobre tarde demais que o momento certo era agora.
Viver bem não significa uma vida sem dor, perdas ou fracassos. Pelo contrário. Viver bem é atravessar o sofrimento sem se tornar pequeno. É transformar feridas em sabedoria, quedas em aprendizado, limites em direção. Há pessoas que vivem pouco e deixam um rastro de sentido; outras vivem muito e não deixam sequer a própria alma em paz. A diferença não está no tempo concedido, mas na consciência aplicada.
Espiritualmente, viver bem é alinhar-se com aquilo que não morre. É compreender que o corpo é transitório, mas os valores que você encarna permanecem. Quando você vive de forma íntegra, algo em você atravessa o tempo — mesmo que sua biologia não o faça. A alma não é nutrida por anos, mas por verdade. Uma vida bem vivida é aquela em que suas ações não traem sua consciência. Onde o que você faz em silêncio é compatível com o que você diz em público. Onde você não precisa fugir de si mesmo quando o mundo se cala.
Mental e emocionalmente, viver bem exige domínio interno. Exige dizer “não” a muitas distrações que prometem prazer imediato, mas cobram vazio prolongado. Exige escolher profundidade num mundo que recompensa superficialidade. Exige, sobretudo, parar de terceirizar a responsabilidade pelo próprio sentido. Ninguém lhe deve uma vida significativa. Essa é uma obra artesanal, construída no dia a dia, decisão por decisão.
A pergunta decisiva não é “quanto tempo ainda me resta?”, mas “o que estou fazendo com o tempo que passa por mim?”. Se você morresse hoje, sua vida teria sido honesta? Teria sido corajosa? Teria sido fiel ao que você sabe ser verdadeiro? Ou você esteve apenas adiando sua própria grandeza em troca de segurança?
Reflita com rigor: se viver muito não está sob seu controle, mas viver bem está, por que você continua adiando a escolha mais importante da sua existência? O que, exatamente, você está esperando para começar a viver de verdade?
Realmente, talvez a verdadeira urgência não seja esticar o tempo que nos resta, mas dar sentido a cada instante que temos.
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