Se você soubesse quem realmente construiu o inferno, nunca mais teria medo dele


Há um medo ancestral que atravessa séculos, religiões e culturas: o medo do inferno. Não apenas como lugar mítico, mas como símbolo máximo de punição, exclusão e sofrimento eterno. Porém, a pergunta que quase ninguém ousa fazer é esta: quem, de fato, construiu o inferno? Se você se permitir encarar essa questão com honestidade radical, algo desconfortável e libertador acontecerá — o medo começará a perder o poder.

O inferno não foi erguido por forças externas que conspiram contra você. Ele não nasce de um Deus sádico, nem de demônios com prazer em torturar. O inferno é uma obra humana. É construído, tijolo por tijolo, por escolhas não examinadas, por mentiras repetidas até virarem identidade, por covardias justificadas como prudência, por desejos reprimidos que apodrecem na sombra. O inferno é o efeito colateral de uma consciência que se recusa a despertar.

Viktor Frankl percebeu isso nos campos de concentração: o sofrimento em si não destrói o homem; o que o destrói é a ausência de sentido. O verdadeiro inferno é viver sem significado, é acordar todos os dias sabendo, ainda que silenciosamente, que você está traindo aquilo que poderia ser. Sartre dizia que “o inferno são os outros”, mas a frase só é verdadeira quando você terceiriza sua responsabilidade e vive como reflexo das expectativas alheias. Nesse caso, os outros se tornam carcereiros porque você entregou a eles a chave.

O inferno é mental antes de ser espiritual. Ele se manifesta como ansiedade crônica, ressentimento acumulado, comparação constante, culpa paralisante e uma estranha sensação de desperdício existencial. É o estado de quem vive pequeno para não desagradar, quem se cala para não perder, quem se adapta para não ser rejeitado. É o preço de trocar verdade por conforto. Nietzsche já alertava: quem não enfrenta seus próprios abismos acaba sendo devorado por eles.

Espiritualmente, o inferno é a separação. Não de Deus, mas de si. É o distanciamento da própria consciência, do próprio centro, da própria verdade. Jesus falava do “reino dos céus” como algo interno; logo, o inferno também o é. Ele não começa depois da morte — começa quando você mata, aos poucos, aquilo que é essencial em você. Toda vez que você ignora um chamado interno por medo, você acende mais uma fogueira.

Mas aqui está a boa notícia, dura e libertadora: se o inferno foi construído por você, ele também pode ser desmontado por você. Não com negação, nem com fuga, mas com responsabilidade radical. Assumir a autoria do próprio inferno é o primeiro passo para sair dele. Como dizia Sêneca, não é livre quem é escravo dos próprios vícios. A libertação começa quando você olha para sua dor e pergunta: que verdade estou evitando viver?

Subir de altitude exige coragem para atravessar esse território interno sem anestesia. Exige disciplina mental para questionar crenças herdadas, força emocional para sustentar desconforto e humildade espiritual para admitir que você errou caminhos. O inferno perde o poder quando deixa de ser mistério e passa a ser compreendido. O medo só domina aquilo que permanece inconsciente.

Agora, a provocação inevitável: quais escolhas diárias estão mantendo seu inferno ativo? Que parte de você está sendo sacrificada para sustentar uma vida que já não faz sentido? E, se você parasse hoje de alimentar esse fogo, quem você teria que se tornar amanhã?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Pascal e os óculos da razão: entre a clareza matemática e os mistérios do coração

Dançando ao som da vida: compreendendo os loucos de Nietzsche

Viva o agora: porque o futuro não é garantido