O ladrão silencioso da minha solidão


Aprendi cedo que a solidão não era um vazio, mas um lugar. Um lugar interno, silencioso, onde eu conseguia ouvir meus próprios pensamentos sem que eles brigassem entre si. Ali eu organizava o mundo, digeria dores, tomava decisões difíceis. Era o meu refúgio. Até o dia em que comecei a permitir que pessoas entrassem nele sem saber por quê.

No início parecia gentileza. Um café aqui, uma conversa ali, mensagens longas que diziam pouco. Pessoas que chegavam cansadas, cheias de histórias, urgentes por falar. Eu ouvia. Sempre ouvi. Acreditei que isso era companhia. Mas, quando essas pessoas iam embora — fisicamente ou pelo silêncio súbito — algo ficava fora do lugar. Eu estava mais confuso do que antes. Mais cansado. Minha solidão, que antes me fortalecia, agora parecia violada.

Demorei para perceber que algo estava sendo roubado. Não eram objetos, nem tempo apenas. Era clareza. Era profundidade. Era o estado de presença que eu cultivava quando estava só. Essas pessoas não entravam para compartilhar o espaço; entravam para ocupá-lo. Falavam para aliviar a própria angústia, não para construir um encontro. Usavam minha atenção como um anestésico temporário e partiam aliviadas, enquanto eu ficava drenado.

Lembro-me de uma noite específica. Chovia. Eu estava em silêncio, lendo, quando aceitei uma ligação. A conversa durou quase duas horas. Muitas palavras, muitas queixas, muitas repetições. Quando desliguei, fechei o livro, olhei pela janela e senti algo estranho: minha solidão tinha sido interrompida, mas não enriquecida. Eu não estava acompanhado. Eu estava invadido. Foi ali que a frase nasceu dentro de mim, como um sussurro firme: “Detesto quem rouba minha solidão sem, em troca, me oferecer verdadeira companhia”.

Essa frase não era raiva. Era lucidez tardia. Percebi que havia encontros que empobreciam mais do que o isolamento. Que havia presenças ocas, que exigiam atenção sem oferecer reciprocidade. Pessoas que não sabiam ficar sozinhas e, por isso, sequestravam o silêncio alheio. Não queriam encontro; queriam distração. Não buscavam comunhão; buscavam alívio.

Passei então a observar algo simples, porém revelador: quem eu me tornava depois de cada encontro. Algumas pessoas iam embora e eu me sentia mais inteiro, mais desperto, como se algo tivesse sido alinhado por dentro. Outras saíam e deixavam bagunça. Pensamentos soltos, cansaço emocional, vontade de me recolher por dias para me reorganizar. Entendi, com um misto de tristeza e maturidade, que nem toda proximidade é companhia.

Foi quando comecei a proteger minha solidão. Não com muros agressivos, mas com critérios. Aprendi a dizer não. Aprendi a não atender todas as chamadas, a não sustentar conversas que giravam em círculos vazios. Descobri que escolher a solidão, às vezes, é um ato de respeito próprio. Que ficar só pode ser mais honesto do que estar mal acompanhado.

Curiosamente, quando passei a honrar esse espaço, encontros verdadeiros começaram a surgir. Pessoas que não tinham pressa em falar, mas sabiam ouvir. Que não fugiam do silêncio. Que não saíam mais leves às minhas custas, mas deixavam algo de valor em mim — uma pergunta melhor, uma perspectiva nova, um senso maior de sentido. Essas não roubavam minha solidão; caminhavam com ela.

Hoje sei: a solidão é um templo. Quem entra precisa tirar os sapatos da superficialidade, do ego barulhento, da carência disfarçada de conversa. Caso contrário, não é visita — é furto.

E você… tem permitido que quem não oferece presença verdadeira continue circulando livremente pelo espaço mais sagrado da sua vida interior?

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