A tragédia moderna: quando a dúvida cala os sábios e a certeza grita nos vazios


Vivemos uma era paradoxal. Nunca houve tanto acesso à informação, e raramente houve tão pouca sabedoria em circulação. A frase que você traz não é apenas uma crítica social — é um diagnóstico existencial profundo. O problema do mundo de hoje não é a falta de inteligência, mas a forma como ela se manifesta: os inteligentes hesitam, os ignorantes avançam. Os primeiros questionam demais; os segundos não questionam nada. E, nesse desequilíbrio, o mundo é conduzido não pelos mais preparados, mas pelos mais barulhentos.

A inteligência verdadeira nasce do contato com a complexidade. Quanto mais alguém compreende a vastidão da realidade, mais percebe o quanto ainda ignora. A dúvida, nesse sentido, não é fraqueza — é sinal de lucidez. Só duvida quem enxerga camadas, nuances, contradições. Só hesita quem entende que decisões reais carregam consequências reais. O sábio caminha com cautela porque sabe que o chão é irregular. Já o idiota corre porque acredita que o mundo é plano.

O drama começa quando a dúvida deixa de ser um instrumento de refinamento e se transforma em paralisia. Muitos inteligentes hoje estão presos em um labirinto mental: analisam tanto que deixam de agir. Questionam tanto que perdem o eixo. Confundem humildade intelectual com autossabotagem. Enquanto isso, os cheios de certezas — frequentemente rasos, impulsivos e inconscientes — ocupam espaços de poder, influência e liderança. Não porque sejam mais capazes, mas porque não tremem.

A certeza absoluta é sedutora. Ela oferece conforto psicológico, identidade pronta e senso de pertencimento. Quem “tem certeza” não precisa pensar — apenas repetir. Não precisa dialogar — apenas impor. Não precisa crescer — apenas defender. Por isso, em tempos de crise, o discurso simplista vence o complexo. A resposta curta vence a reflexão longa. A frase de efeito vence o pensamento profundo.

Mas não se engane: a dúvida não é o inimigo. O inimigo é a covardia de permanecer nela indefinidamente. A dúvida foi feita para ser atravessada, não habitada. Ela é ponte, não morada. O papel do inteligente não é se calar por medo de errar, mas falar com responsabilidade, mesmo sabendo que pode errar. Errar, aliás, é parte do preço de viver com consciência.

Há também uma dimensão espiritual nesse fenômeno. A verdadeira fé — seja religiosa, filosófica ou existencial — não elimina a dúvida; ela a integra. A fé madura convive com perguntas. A fé infantil exige certezas absolutas. O mesmo vale para a mente: a maturidade intelectual sustenta tensão; a imaturidade precisa de respostas definitivas para não colapsar.

O mundo não precisa de menos dúvidas. Precisa de mais coragem nos que duvidam. Precisa que os inteligentes assumam responsabilidade moral pelo que sabem. Silenciar diante da estupidez não é humildade — é omissão. Permitir que os cheios de certezas conduzam a narrativa é abandonar o futuro nas mãos de quem não compreende o presente.

Se você é alguém que pensa, sente o peso da complexidade e carrega dúvidas honestas, entenda: sua tarefa não é se tornar mais ruidoso, mas mais firme. Não é eliminar a dúvida, mas transformá-la em clareza progressiva. Não é buscar certeza total, mas direção suficiente para agir com sentido.

Porque, no fim, o mundo não será destruído pelos idiotas cheios de certezas — mas pelos inteligentes que se recusaram a assumir a própria voz.

E agora, a pergunta que não pode ser evitada: em quais áreas da sua vida você está usando a dúvida como sinal de inteligência — e em quais está usando como desculpa para não assumir responsabilidade?

Comentários

  1. Foi assim que o nazismo prosperou, mas os filósofos não se calaram, não. Em 1933, Russell alertou no ensaio do "Triunfo da Estupidez". O problema é que a força bruta dos fanáticos supera a razão, como nos dias atuais.

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