“Coincidência”: o disfarce divino que revela mais do que esconde
Existe uma frase provocadora, atribuída a Albert Einstein, que diz: “A coincidência é a forma que Deus tem de se manter no anonimato.” A princípio, pode soar como uma simples metáfora poética, mas há um convite profundo nessa afirmação: e se aquilo que chamamos de “acaso” for, na verdade, uma linguagem sutil do divino? Essa ideia mexe com a forma como percebemos os eventos da vida – do encontro inesperado à reviravolta repentina que muda tudo. Nada talvez seja tão “por acaso” quanto parece.
O filósofo estoico Sêneca escreveu certa vez: “A sorte é o que acontece quando a preparação encontra a oportunidade.” (retirado de “Cartas a Lucílio”) – um pensamento que se conecta com a ideia de que coincidências não são acidentais, mas acontecimentos que só fazem sentido para quem está atento. Aquilo que você interpreta como “mera coincidência” pode ser o resultado invisível de causas que você não consegue rastrear. Mas isso não significa que elas não tenham sentido. Significa apenas que o sentido está além do nosso controle imediato, e talvez seja justamente aí que a espiritualidade entra.
Carl Jung, psiquiatra suíço e pai do conceito de “sincronicidade”, dedicou parte de sua vida a estudar como certos eventos aparentemente desconexos se alinham de forma simbólica na vida das pessoas. Ele relata em seu ensaio “Sincronicity: An Acausal Connecting Principle” que não são apenas coincidências, mas manifestações de uma ordem mais profunda, não-causal, que aponta para algo maior do que a lógica pode explicar. Um exemplo clássico é o caso de uma paciente que sonhava com um besouro dourado e, durante a sessão de análise no dia seguinte, um escaravelho – extremamente raro naquela região – bateu na janela. Para Jung, aquilo foi mais do que sorte. Era um sinal de que o inconsciente da paciente e o mundo externo estavam misteriosamente em sintonia.
Viver com essa consciência muda tudo. Transforma a pressa em atenção, a dúvida em escuta, a rotina em uma espécie de ritual secreto onde o sagrado se esconde. Uma frase solta que ouvimos no ônibus, um livro que “cai do nada” na nossa vida, uma pessoa que encontramos justo quando mais precisamos – tudo isso pode ser percebido como mensagem, como convite ao despertar. Não para superstição, mas para presença.
É curioso que, em meio ao ceticismo moderno, tantos ainda se emocionem quando algo improvável acontece e “faz sentido”. Isso mostra que nossa alma reconhece padrões antes da razão admiti-los. Somos feitos de perguntas profundas e silenciosas – e talvez as coincidências sejam as respostas que o universo nos sussurra quando estamos prontos para escutar.
Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto e criador da logoterapia, dizia que “quem tem um porquê, suporta qualquer como” (frase presente em “Em Busca de Sentido”). Talvez as coincidências sirvam como lampejos desse “porquê” – pequenas confirmações de que, mesmo na incerteza, há um fio invisível nos conduzindo. A questão não é se Deus existe ou se Ele está operando por trás das coincidências. A questão é: você está prestando atenção?
Coincidência ou não, algo nos observa. E talvez esse algo use o silêncio, os encontros e os acasos como forma de falar conosco – sem precisar dizer uma única palavra.

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