Excelência: o fardo e a liberdade do hábito
Aristóteles, ao dizer que somos aquilo que fazemos repetidamente, toca em uma ferida silenciosa que atravessa séculos: o homem não se define por intenções, promessas ou lampejos de virtude, mas por aquilo que escolhe repetir no silêncio dos dias. Um ato isolado pode ser sorte, coincidência, inspiração momentânea; mas o hábito revela o caráter, porque molda lentamente a alma. Se a excelência não é um feito extraordinário, mas o fruto de repetições disciplinadas, então cada gesto cotidiano é uma escultura invisível que talha o destino humano.
Essa visão é incômoda porque desmascara o mito do “grande momento” — aquela ilusão de que um dia, em um golpe de sorte ou de coragem, conquistaremos tudo. O filósofo grego lembra que não há atalho: somos o resultado do treino constante, das escolhas pequenas, dos movimentos repetidos. O guerreiro que vence a batalha não o faz porque se iluminou subitamente no campo de guerra, mas porque treinou mil vezes a mesma postura, o mesmo golpe, a mesma respiração. O escritor não publica um livro porque um dia foi inspirado, mas porque todos os dias, mesmo cansado, sentou-se para escrever. A alma não se torna luminosa porque decidiu ser virtuosa, mas porque todos os dias resiste às tentações de se apequenar.
Aqui está o aspecto espiritual da frase: hábitos não são apenas mecânicos, são rituais. Cada repetição grava em nós uma marca invisível, seja para a servidão, seja para a liberdade. Se cultivamos a procrastinação, a autocomiseração, o vitimismo, estamos repetindo liturgias que nos rebaixam. Se cultivamos a disciplina, a gratidão, o esforço deliberado, estamos elevando o espírito como quem sobe degraus invisíveis rumo à grandeza. A excelência, portanto, é uma espiritualidade prática: é tornar sagrado o comum, é consagrar o ordinário até que dele brote o extraordinário.
O problema é que a maioria não quer excelência, quer exceção. Deseja colher sem plantar, quer a glória sem o suor, sonha com o milagre sem atravessar o deserto. E assim permanecem escravos de hábitos medíocres, que escondem atrás de discursos inspirados a covardia de não mudar a rotina. É preciso denunciar esse autoengano: você não é o que diz, você é o que repete. Sua vida atual é a soma das microdecisões que você sustentou. E se não gosta do que vê, não adianta mudar de sonhos — mude de hábitos.
Pergunte-se: quais hábitos estão esculpindo meu caráter neste exato momento? Estou repetindo gestos que me aproximam da minha visão mais alta de ser humano ou apenas reforçando correntes invisíveis que me mantêm pequeno? Tenho coragem de eliminar uma repetição nociva e substituí-la por um ritual de fortalecimento?
O caminho da excelência não pede perfeição, pede perseverança. Exige a humildade de repetir, a paciência de falhar, a coragem de levantar. A cada repetição você se reconstrói. O hábito não é prisão, é ferramenta: pode ser usado para perpetuar a mediocridade ou para libertar-se dela. A questão não é se você terá hábitos — todos temos —, mas se escolhe conscientemente aqueles que o aproximam da vida que diz querer viver.
No fundo, Aristóteles nos entrega um espelho: você não será lembrado pelo que sonhou, mas pelo que praticou. A excelência é, ao mesmo tempo, fardo e liberdade. Fardo, porque exige constância quando ninguém aplaude. Liberdade, porque liberta do caos da improvisação e coloca nas mãos humanas o poder de moldar-se a si mesmo.
E agora, a provocação final: quais hábitos você precisa matar para que a sua excelência nasça?

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